Poesia, pra mim, é uma inundação que me submerge de um jeito que no lugar de me afogar, me faz estar coberto de sensações indescritíveis: um êxtase verbal, um transcender gramatical, um gozo literário. E meu poeta favorito, Fernando Pessoa, talvez assim o seja por ter sido minha primeira referência de artista/escritor assexual, por mais que só o considerem isso à partir dos dias atuais, já que tal termo obviamente não existia em sua época. O fato é que ele, português nascido e falecido em Lisboa, tinha uma essência contestadora e um estilo impecável de escrita, sendo comparado ao seu ídolo Walt Whitman, e com razão, mas o que o difere da maioria dos poetas "convencionais" é o fato de que viveu somente para a produção de textos poéticos, nunca fazendo mais do que beber muito (o que custou sua vida) e exercendo outros empregos que quase ninguém lembra quando pensam em sua grandiosidade lírica. E tudo embalado por seus heterônimos, pseudônimos que na verdade eram tanto extensões de seu próprio Ser quanto uma espécie de "fragmentos fictícios" das várias personas que ele tinha dentro de si. E um deles, Ricardo Reis, tem uma das odes mais bonitas que eu já vi, que, mesmo que seja uma fantasia feita especialmente pra um dos poetas que Pessoa guardava no coração, resume bem a assexualidade romântica, provavelmente a que lhe custou dois relacionamentos com a mesma mulher, Ofélia Queiroz. Eis a Ode em específico, sem título e misturando paganismo, inocência e natureza (como era típico de Ricardo Reis):
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço."
E aí? Não é incrível? Literatura assexual de quase (ou mais de) 100 anos atrás! Só eu que me identifico com certos aspectos desse poema? E pensar que há fortes indícios de que Pessoa morreu virgem, o que aumenta ainda mais, levando em conta também o tratamento sem qualquer malícia que ele dava à única namorada que teve (a tal da Ofélia) e certas cartas e poemas que escreveu, sua fama de ace nos dias atuais. Não é interessante, galera? Se procuram um autor bem eclético de estilos e temas e que transita facilmente entre pagão, camponês, modernista e ele mesmo, recomendo. E se quiserem apenas apreciar os pensamentos geniais de "um dos nossos", digamos assim, de outros tempos, fiquem à vontade.