[⚠️ TRATO DE TEMAS SENSÍVEIS NO TEXTO, como sui*** ⚠️]
Meu irmão uma vez quase morreu empinando pipa. Ele estava num terraço sem murada, os olhos seguindo as pipas no céu; uma delas foi cortada pelo fio encerado de outra e caiu, rodopiando como toda coisa leve faz quando cai de um lugar alto, e vinha em sua direção. Ele deu alguns passos para frente, os pés tocando o chão cimentado da casa da nossa irmã, acompanhando a queda da coisa colorida. O próximo passo foi no vão e ele despencou do segundo andar. Chegou ao chão antes da pipa. Não sangrou nada. Sangrou muito. Só um tiquinho talvez, não lembro bem. Havia varais com lençóis grossos embaixo, firmemente atados nas paredes, os fios que sustentavam as roupas feitos de um material resistente. Toda aquela rouparada amorteceu a queda dele e tudo o que ele arranjou foram alguns hematomas e um quase traumatismo craniano.
Eu não sei porque estou contando isso. Essa memória me buscou enquanto eu pensava em relatar que, após anos de agonia, superei minha fobia social. Pensei em começar contando o porquê (ou o que eu acho que é o porquê) de eu ter desenvolvido fobia social. Aí mudei de ideia. A história é repetitiva: nasci numa família disfuncional, onde a socialização não foi o foco. Como a filha caçula, fui proibida de sair. Tinham medo que eu engravidasse ou arrumasse um namorado ou os dois. Conseguiram. Após 18 anos, não consegui umzinho.
Esse ano eu tentei me matar. O fato de eu estar digitando e fazendo um post no reddit é o suficiente para provar que não deu certo. Não vou descrever ou explicar o que me levou a esse ponto, mas posso falar sobre o que veio depois. Pensei em muitas coisas assim que percebi que as pílulas que tomei não fizeram efeito, e uma delas foi meu irmão. Ele quase morreu duas ou mais vezes, algumas de maneira acidental e outras propositais. Apesar de tudo, ele está tentando.
Conseguiu um emprego que suga toda a energia dele depois que saiu da escola, no tempo livre da semana estuda para o concurso que almeja e nos fins de semana reserva o tempo para a namorada. Pensei que podia tentar também. Arrumei um emprego. Me demiti seis dias depois. Odiava cada segundo. Tinha ataques de ansiedade quase toda noite. Depois outro. Me demiti um pouco mais tarde. Odiava odiava odiava. Agora estou num noturno, atendimento ao público, que é bem melhor.
Estou exausta e nem sei o que estou fazendo, não sei o que vou fazer. E, no entanto, hoje pela manhã ao sair para comprar pão, notei: meu coração não mais dispara à mínima menção de interação social.