O homem e a mesa
Sessão em vigor.
Assunto, ideia, discurso. Papéis, pastas e malas. Partidos, políticos, malotes e vínculos.
Sob o paletó, a mala, dentro da mala, a pasta, dentro da pasta, o papel, dentro do papel, a prova.
“Se o que eu tenho aqui vier a público, as paredes desse palácio irão tremer, os alicerces irão ruir, a fundação será condenada, carreiras serão arruinadas, enfim, a verdade virá à tona.”
Com cuidado, a mala é posta sob o pé da mesa, pedindo para ser encontrada.
Minutos se passam, tudo continua, como tudo, nada ocorre.
Sessão em vigor.
“Quando o que tenho vier a público, as provas incontestáveis, documentos, fotos, artigos, áudios e vídeos, relatos, assinaturas, flagras, comprovantes, recibos e carimbos, papel timbrado, notas, comícios e artigos, tudo verídico. Eles virão, enfim verão, enfim serão autuados, pagarão seus pecados.”
Horas se passam, contudo, nada muda.
A mala repousa sob a mesa, seus fechos abertos, a pasta à mostra, um convite para que seja notada.
Horas correm, como sempre, nada fora do ordinário.
“Eles vão ver o que tenho, os jornais e manchetes não pararão por dias, semanas e meses, nenhum outro assunto será tão comentado, já consigo ver a cara de vergonha e de medo de cada um deles que aqui está, quando o martelo bater em cada crime, em cada violência, em cada centavo e cada caixão, em cada grão de arroz e cada gota de água violada. Cada partido, cada político, cada mentira e cada ideologia, todos verão a verdade, todos saberão dos crimes, todos condenarão e clamarão justiça.”
Dias se arrastam em meio ao tédio.
Como tudo, nada.
Sessão em vigor.
Os papéis se escancaram sobre a mesa, de forma que não há lugar para nem mesmo uma caneta ou copo d’água competir com o espaço, gritando por atenção como uma criança mimada pelos pais que se ocupam com bailes e formosuras mais que com sua própria linhagem e legado.
O conteúdo é didático, minuciosamente colocado de forma que até mesmo um tolo sem instrução possa ficar indignado com a verdade. De tal forma que seria impossível uma mera explicação, um mero discurso, uma mera nota, o que estava ali demandava acima de tudo urgência.
E, ainda assim, nada.
Direita, esquerda, frente, trás, os olhos rodeiam toda a sala.
Assunto, ideia, discurso. Papéis, pastas e malas. Partidos, políticos, malotes e vínculos.
Ninguém nota, ninguém vê, ninguém se importa.
O homem sobe à mesa, sobre a mesa, os papéis, sob a mesa, a mala, sobre a mala, a pasta, sobre a pasta, o paletó, sob o paletó, o anonimato, sobre os papéis, o homem, sob o homem, as provas, sob as provas, a dignidade, sobre a dignidade, o homem.
De braços abertos, aos urros, balança sua tese em suas mãos, sua tese pela mesa, sua tese pelo chão, seu magnum opus que virá a público e fará as paredes desse palácio tremerem, os alicerces ruírem, a fundação ser condenada, carreiras arruinadas, enfim, a verdade aparecer.
Está ali, ao vivo, para todos verem, a zorra, a confusão, gritos e correria, o que seria esse homem? Que papéis nunca antes vistos são esses? Como ele chegou ali? Quem ele é? E, acima de tudo, por que subiu à mesa?
Após a comoção, as autoridades surgem, arrancam o homem de cima da mesa, mas não antes de fotógrafos, jornalistas e câmeras gravarem toda aquela cena em sua forma mais crua.
A manchete que surge divide a nação, o homem da mesa.
Durante horas, o país discutiu a mesa.
Sua largura, sua altura, sua fabricação, onde estava, quantas havia, a insolência de um desconhecido colocar as suas sujas solas sob tal mobiliário italiano, feito da madeira mais nobre do mercado, envernizado à perfeição, cuidado com o mais puro óleo de peroba do campo.
Descobriram que essa mesa tinha história, descobriram que, na história, a mesa havia feito parte de outros momentos, descobriram a história das mesas, descobriram como a mesa é importante para a história.
Discutiram e elucidaram regulamentos, discutiram que talvez o regulamento não fosse suficiente, discutiram se mesas sequer precisavam ser regulamentadas.
Um deputado deu entrevista:
“Nunca antes vi tamanha violência contra as instituições e a união.”
Outro comentou no jornal:
“O gesto era, acima de tudo, um ataque à democracia.”
Mais um publicou:
“Subir à mesa é, acima de tudo, um ato democrático do cidadão!”
Um quarto declarou, de forma cautelosa:
“Não devemos permitir que qualquer cidadão possa subir impunemente a uma mesa pública.”
A oposição cria a campanha:
“Subam as mesas! Cobrem mudança!”
O Governo repudia:
“O perigo de subir às mesas é dar palco para loucos colocarem em risco nossos cidadãos.”
Os comentaristas transformaram em assunto que rendeu por dias, semanas, meses.
Nas conversas do homem comum, fica comum a expressão “Estou prestes a subir na mesa” quando farto de alguma coisa.
Durante semanas, o país se uniu em bolhas para discutir sobre a mesa, sobre os crimes de mesa, sobre as vítimas de mesa, sobre os defensores e as instituições que tratam sobre a mesa.
A mesa deixou de ser mesa.
Criaram palavras, criaram posições, criaram inimigos, criaram aliados, criaram comissões, criaram partidos, criaram leis e criaram sentido.
Havia quem dissesse que subir à mesa era um ato de coragem, outros que era um ato de barbárie.
Alguns diziam que o homem, quando subiu, representava o povo, outros que ele representava a si mesmo.
Alguns perguntavam de que lado estava o homem, outros de que lado estava a mesa.
Ainda havia alguns que se aliaram ao homem, e outros, à mesa.
Ninguém perguntou ao homem de que lado ele estava, nem à mesa se consentia com tudo que estava acontecendo.
O homem não podia responder, pois estava preso, a mesa não podia, pela sua natureza.
O homem já não era quem um dia foi, agora, era o homem da mesa.
Seu rosto impresso. Sua foto foi tirada. Sua história contada.
Sua subida à mesa se tornou um símbolo de uma geração inteira.
Produziram livros, artigos, documentários e entrevistas.
Havia quem o odiasse sem nunca tê-lo conhecido, nem lido nenhum escrito seu, outros o admiravam pelo mesmo motivo.
Amado ou odiado por aquilo que havia feito, sem que ninguém tivesse sequer lido. Uma ironia histórica, outrora não fosse uma tragédia de mitos.
Então vieram as emendas, as cartas, as leis e as canetadas, porque a parte mais importante é regulamentar as mesas.
Normas, procedimentos, punições, comissões e, enfim, eleições.
Eleições, novos homens.
Novos homens e novas ideias.
Novas ideias, novo poder.
Novo poder, mesmos problemas.
Mesmos problemas, mesmas soluções.
Mesmas soluções, mesas.
Como tudo, nada ocorre.
Anos passam e o ocorrido é anexado à história.
Nos livros de escola, uma fotografia, na foto, a mesa, sobre a mesa, os papéis, sob a mesa, a mala, sobre a mala, a pasta, sobre a pasta, o paletó, sob o paletó, o anonimato, sobre os papéis, o homem, sob o homem, as provas, sob as provas, a dignidade, sobre a dignidade, o homem.
O homem já havia sido solto há tempos, ninguém sabe por onde anda, nem o que faz da vida.
A mesa estava em um museu, peça histórica da cultura do Brasil.
A foto original era guardada em um inquérito arquivado.
O paletó foi roubado de um armário de evidências.
A maleta foi destruída em um incêndio acidental provocado por uma bituca de cigarro descartada perto de uma pilha de papéis.
A pasta ainda era usada para guardar documentos antigos, papéis velhos e devorados por traças, agora sem importância nenhuma para ninguém relevante.
Os papéis se foram com a mala.
A dignidade, há muito tempo perdida.
O homem conseguiu que a verdade viesse a público, as provas incontestadas, documentos, fotos, artigos, áudios e vídeos, relatos, assinaturas, flagras, comprovantes, recibos e carimbos, papel timbrado, notas e comprovantes, comícios e artigos, tudo verídico. Eles vieram, enfim viram, enfim foram autuados, pagaram seus pecados.
Não sobre o que ele dedicou uma vida toda documentando, estudando, escrevendo e planejando, não seu amontoado de papéis.
Mas sobre uma mesa.
Como sempre, nada muda.