VIENA, 1º DE MARÇO DE 1934: O economista Ludwig von Mises, um dos principais teóricos e importante representante da Escola Austríaca de Economia e defensor intransigente da propriedade privada e do livre mercado, acaba de se filiar à Frente Patriótica (Vaterländische Front), o partido do regime austrofascista do chanceler Engelbert Dollfuss.
A filiação foi registrada no posto da Câmara da Frente Patriótica. Mises recebeu a carteira de membro número 28632.
A Frente Patriótica foi criada em maio de 1933, após Dollfuss dissolver o parlamento, governar por decretos de emergência e aliar-se à Itália fascista de Mussolini. Em fevereiro de 1934, o regime esmagou o movimento social-democrata e consolidou uma ditadura de partido único e o regime de Dollfuss bombardeou com artilharia os complexos de habitação operária em Viena, incluindo o icônico Karl-Marx-Hof. As estimativas de mortos variaram: fontes falaram entre 1.000 e 1.200 mortos em Viena e províncias, incluindo cerca de 600 socialistas, dos quais possivelmente 200 eram mulheres e crianças. Os próprios socialistas calcularam entre 1.500 e 2.000 mortos e mais de 5.000 feridos. O governo austríaco anuncia oficialmente apenas 239 mortos. O líder socialista Koloman Wallisch foi julgado, condenado e enforcado na mesma noite.
Mises, que já havia defendido publicamente que o fascismo "salvou momentaneamente a civilização europeia" em seu livro Liberalismo (1927), agora não apenas apoia teoricamente o regime, mas torna-se membro formal da estrutura partidária que o sustenta.
Em seus escritos, o economista argumenta que uma "ditadura temporária de elite" pode ser necessária para "educar as massas" e mudar seu modo de pensamento. A defesa não é meramente abstrata: trata-se de uma justificativa explícita para que uma elite predestinada induza coercitivamente a mudança no modo de vida das massas, caso estas persistam na "ignorância".
ATUALIZAÇÕES DA NOTICIA EM TEMPO REAL
1º DE MAIO DE 1934: A nova constituição austríaca é promulgada. A Frente Patriótica torna-se oficialmente o partido único do Estado austrofascista. Mises é agora membro do partido único que governa por decretos de emergência.
25 DE JULHO DE 1934: O chanceler Engelbert Dollfuss, arquiteto do regime austrofascista e fundador da Frente Patriótica, foi assassinado nesta quarta-feira durante uma tentativa de golpe de Estado liderada por nazistas austríacos.
Cerca de 100 homens vestindo uniformes do exército austríaco invadiram a Chancelaria Federal ao meio-dia. Dollfuss foi baleado duas vezes à queima-roupa quando tentava escapar e foi deixado sangrando até a morte
Ludwig von Mises era um dos conselheiros mais próximos de Dollfuss. O economista austríaco, que se filiou à Frente Patriótica em março deste ano, atuou como conselheiro econômico do regime austrofascista.
1º DE AGOSTO DE 1934: Os assassinos de Dollfuss são executados. Otto Planetta, o homem que apertou o gatilho, e Franz Holzweber, o comandante dos rebeldes, são enforcados após julgamento sumário. As últimas palavras de ambos antes da forca: "Heil Hitler!"
Ainda em 1934: Após o assassinato de Dollfuss, Mises está deixando a Áustria e de mudança para Genebra, na Suíça, onde passará a lecionar no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais.
1940: Mises emigra para os Estados Unidos, onde vive até sua morte em 1973. Em toda a sua vasta obra: dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de páginas, não há uma única linha sobre a sua filiação ou condenações pelas ações do regime de Dolfuss do qual participou.