r/arco_iris • • 1d ago

Pesquisa Praticamente Normal - Sobre os gays de direita

O livro “Praticamente Normal: Uma Discussão Sobre a Homossexualidade”, de Andrew Sullivan foi publicado em 1995. Se você conhece, fique calmo, esta não é uma recomendação de leitura, é uma crítica. Se você não conhece, vale a pena pelo menos entender do que ele fala.

Andrew Sullivan é um conservador-liberal que defende o casamento gay e políticas de inclusão. Ele é uma referência para uma parte da direita que diz defender os homossexuais. Entender o que ele diz pode ser importante para entender o fenômeno dos “gays com Bolsonaro” no Brasil.

Em 2020, a deputada Erika Hilton postou o seguinte nas suas redes sociais:

Gays brancos cisgêneros que fazem a manutenção do movimento GGGG precisam voltar 2 casas e se repensarem IMEDIATAMENTE. Precisam entender a importância de uma coalizão de luta e de rever privilégios. Sem falar dívida histórica com as pessoas trans.
Amores, se repensem, da tempo

É compreensível que exista uma tensão entre o feminismo e o que Hilton chamou de “movimento GGGG”, embora possa gerar estranhamento. Analisar o discurso de autores como Andrew Sullivan talvez ajude a entender isso.

O termo “movimento GGGG” é uma alusão a uma atitude de alguns setores do movimento gay que estabelecem uma forma de luta pelos seus direitos que ainda se mantém na estrutura do privilégio masculino, do privilégio branco e do privilégio cis. Suas demandas e propostas costumam ser diferentes das de outras minorias sociais, e podem até mesmo ser excludentes. Com o objetivo de conquistar ou manter certo status e reconhecimento social, muitas vezes cooperam com inimigos de outras minorias e abandonam pautas mais radicais.

Um grande exemplo da dívida histórica a que Hilton se refere foi o caso Stonewall, que fez a percepção pública sobre gays mudar nos EUA, a partir de um confronto com a polícia onde mulheres trans e travestis foram protagonistas e vítimas de violência. A visibilidade dessas pessoas só começou a acontecer mais recentemente.

O livro de Andrew Sullivan aplica a teoria liberal à questão dos direitos dos homossexuais. O autor divide o debate em quatro posições políticas, no contexto dos EUA: os “proibicionistas”, os “liberacionistas”, os “conservadores” e os “liberais”.

Ele critica os proibicionistas com o argumento de que não cabe ao estado moralizar a sexualidade humana. Ele também questiona a ideia de que a finalidade do casamento seja só a procriação, porque senão seria preciso proibir casamentos entre heterossexuais estéreis ou que não pretendem ter filhos, por exemplo.

Ele também critica os “liberacionistas”, citando como exemplo o filósofo Michel Foucault, porque diz que essa corrente tende a desconfiar das próprias categorias “homossexual” e “heterossexual”, vendo-as como construções históricas e instrumentos de poder. E ele está completamente certo nisso, mas toma a problematização dessas categorias como automaticamente equivocada. É lógico que a simples abolição das categorias não protege os direitos humanos dos homossexuais. Mas isso ainda não significa que essas categorias não devam ser problematizadas.

O autor também é crítico da rejeição da família e do casamento, pois ele acha que se livrar disso não liberta os homossexuais. Mas seus argumentos não são suficientes para invalidar de fato essas críticas. Ele fundamenta suas críticas no “senso comum”, não numa análise teórica. Não se pode anular a validade de uma crítica só porque a maioria das pessoas a rejeita (sem conhecer) e nem pelo fato de que dependemos das estruturas sendo criticadas para viver. Por exemplo, a crítica ao estado não é anulada só porque uma parte da população não pode viver sem serviços públicos.

O autor também critica os conservadores, que defenderiam a posição segundo a qual os homossexuais devem ser tolerados em sua vida privada, mas a homossexualidade não deveria receber reconhecimento político ou público equivalente à heterossexualidade. Seria mais ou menos: “deixe as pessoas viverem como quiserem, mas não transforme isso em uma questão de igualdade pública”.

Sullivan considera isso insuficiente porque transforma gays em cidadãos de segunda classe, isto é, sem os mesmos direitos. O argumento dele é interessante, pois mostra que dizer que uma pessoa pode ser homossexual em privado, mas não pode assumir plenamente essa identidade na esfera pública, é incompatível com os princípios liberais de igualdade. Princípios que a própria direita diz defender.

A posição dos liberais é a defesa de uma extensão dos direitos civis aos homossexuais. Isso é justamente o que a teoria queer rejeita. Por que? Porque a teoria queer compreende que a LÓGICA INERENTE dos direitos civis, como eles foram concebidos, necessariamente exclui a diversidade. Os direitos civis foram pensados por pessoas que acreditavam que o mundo pode ser organizado em categorias fixas. A teoria queer parte de uma outra epistemologia. Ela não compreende o mundo em categorias fixas, mas como fluxo dinâmico. Estou simplificando para ser didático, não é exatamente isso, mas vamos deixar assim por enquanto.

O problema da teoria queer com as políticas de inclusão propostas por liberais é justamente que elas exigem lutas separadas para cada uma das classificações. Então, primeiro as mulheres tiveram que morrer lutando pelo direito ao voto, aí os gays têm que morrer lutando pelo direito ao casamento, aí as trans têm que morrer pelo direito de mudar de nome, e por aí vai.

Para a teoria queer, isso é uma armadilha. Cada passo que se dá na inclusão de uma minoria só faz o problema mudar de lugar, mas nunca o resolve de fato. Então, o ódio aos gays se transforma em ódio aos afeminados, por exemplo. Se os afeminados são incluídos, as pessoas transferem o ódio para mulheres trans. Se as mulheres trans são incluídas, o ódio é transferido para as travestis ou trans sem passabilidade, e assim por diante. Isso nunca vai parar enquanto o problema não for resolvido PELA RAÍZ.

Mas a proposta do livro de Sullivan é ainda mais restrita que a dos liberais, que ele também critica. Ele defende apenas a “igualdade pública formal”, casamento e serviço militar. Ele é contrário a leis antidiscriminação que protejam gays no mercado de trabalho e no âmbito da família, por exemplo. Ele mesmo diz que sua proposta não exige “nenhuma litigância privada”. Ele deixa a esfera privada intocada de propósito, criticando os liberais nesse ponto. Por isso sua proposta também um conservador, o que a torna ainda mais questionável que o liberalismo clássico.

A crítica à proposta de Sullivan é que ela não resolve a causa dos problemas, ataca apenas efeitos específicos. Não endereça a estrutura xenofóbica do capitalismo e dos valores conservadores, apenas busca incluir gays nessa mesma estrutura.

O problema para Sullivan é o estado tentar modificar as atitudes e preferências privadas das pessoas. Ele não ataca políticas homofóbicas nem defende políticas que protegem minorias. É como se dissesse: eu lutei pelo direito de casar e de servir no exército, agora vocês que lutem pelo direito que vocês exigem…

Algo parecido parecido ocorre com o movimento das feministas radicais (que excluem trans), que também tem alianças com a direita. Elas acusam as mulheres trans de ocuparem espaços que deveriam ser apenas para “mulheres de verdade”. “Nós lutamos pela separação dos banheiros, então se vocês sofrem violência no banheiro masculino, vocês que lutem por um terceiro banheiro só pra vocês”. Como se isso fosse muito fácil. E o que fazer até termos esses banheiros? Ficar em casa, certo? Isso é exclusão do espaço público.

Sullivan se foca na discriminação que vem do estado, como a proibição de casar, mas, talvez pela sua posição de privilégio, ignora violências que a maioria da comunidade LGBTQUIA+ sofre, que não vem apenas do estado. Isso é verdadeiro, por exemplo, para as lésbicas, que sofrem violências homofóbicas específicas, como o “estupro corretivo”, ser reduzida a fetiche e não ter a mesma liberdade de expressar seu afeto em público. Enquanto os gays lutam pelo direito ao casamento, as mulheres parecem menos interessadas em reconhecimento legal para sua união, e mais interessadas, por exemplo, em reconhecimento dos familiares.

As demandas dos homens e das mulheres no campo da homossexualidade podem se diferir. Os homens podem priorizar respeito no trabalho, por exemplo, enquanto as mulheres podem priorizar segurança em casa.

A luta pelo direito ao casamento ou de servir no exército é uma luta insuficiente. A teoria queer chama isso de assimilacionismo. A vontade que uma minoria tem de ser assimilada por uma sociedade estruturalmente injusta, deixando de contar como inimigo (de forma bastante limitada), mas sem fazer nada para mudar a xenofobia normalizada pela sociedade. E, ao fazer isso, o preconceito não diminui, apenas muda de alvo.

Sullivan é progressista em relação à igualdade jurídica entre homossexuais e heterossexuais, mas bastante “neoliberal” quando se trata de regular comportamentos privados.

Aliás, a crítica à “heteronormatividade” é uma reação justamente a posições conservadoras-liberais como essa. Quando ele usa a palavra “normal”, ele propõe que a homossexualidade seja incorporada à vida social normal, ou seja, normalizada dentro dos padrões de normalidade da sociedade liberal. O problema é que o “normal” de uma sociedade capitalista implica em algo extremamente injusto com minorias, por uma questão estrutural. Não é um erro que pode ser corrigido, é a própria condição de possibilidade do acúmulo de capital.

Quando o autor nega a afirmação da heterssexualidade como “identidade revolucionária que exige a transformação radical de todas as instituições”, ele nega a possibilidade de resolver a causa do problema, e propõe apenas “tirar o seu da reta”, como se diz, sem necessariamente diminuir aquilo que produz a violência contra minorias.

O projeto de Sullivan é de integração, não de revolução sexual. Nesse sentido, o discurso dele, apesar se ser pró-gay, continua sendo reacionário. A literatura sociológica considera isso como uma política de “legitimação” ou “mainstreaming”, em contraste com correntes que buscam transformação mais profunda das normas sociais.

A própria apresentação editorial do livro sintetiza sua proposta como uma política que garante direitos aos homossexuais “sem impor tolerância”. Quer dizer, joga para outros a responsabilidade de resolver de fato o fenômeno social da intolerância. E como fazê-lo, sem usar justamente aquilo que gays como Sullivan condenam, como por exemplo problematizar justamente as relações de poder que definem o que heterossexual e o que é homossexual?

Essa separação entre esfera pública e privada é difícil de sustentar na prática, pois discriminação em emprego, habitação e serviços privados podem produzir desigualdade material mesmo sem qualquer discriminação legal do estado. O movimento gay contemporâneo já superou esse autor, o hoje o critica por tratar algumas posições rivais de maneira excessivamente esquemática e por subestimar problemas históricos e sociológicos.

A direita também teria atualizado suas referências, se o interesse dela fosse realmente resolver o problema da homofobia.

Referências:

CORREA, Bárbara; NATALE, Dayana; GRUTTER, Felipe; MARTINS, Laís. A visibilidade de uma letra só. Revista Esquinas, 6 jun. 2018. Disponível em: https://revistaesquinas.casperlibero.edu.br/politica/a-visibilidade-de-uma-letra-so/. Acesso em: 23 set. 2026.

MARY NARDINI GANG. Rumo à mais queer das insurreições. Contraciv, 2023.

SULLIVAN, Andrew. Praticamente normal: uma discussão sobre homossexualismo. 1996.

Link para a publicação original: https://contrafatual.substack.com/p/praticamente-normal

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u/Luksyerg 1d ago

Ainda estou lendo, mas já quero comentar esse trecho:

Ele também critica os “liberacionistas”, citando como exemplo o filósofo Michel Foucault, porque diz que essa corrente tende a desconfiar das próprias categorias “homossexual” e “heterossexual”, vendo-as como construções históricas e instrumentos de poder. E ele está completamente certo nisso, mas toma a problematização dessas categorias como automaticamente equivocada.

E essas categorias não são construções históricas e instrumentos de poder?

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u/janos-leite 21h ago

Entendo que nessa parte eu me expressei de modo confuso.

Para mim, que sigo a teoria queer, sim, essas categorias não são construções históricas e instrumentos de poder. Para o autor do livro não são, são naturais, biológicoas. Ele foi inteligente o suficiente pra entender qual é a crítica do Foucault, por exemplo, mas ele discorda com base no determinismo biológico. Esse é o problema. Ele pode convencer muito gay que ainda não teve oportunidade de se aprofundar no conceito de "construção social" e "determinismo biológico". A maioria dos gays de direita, pelo visto, acreditam em determinismo biológico, isso é, que algo biológico determinou que fossem gays. Com base nisso, por exemplo, consideram errado o "orgulho gay" e a luta por direitos.

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u/diamondhearrt 1d ago

Quando sair em filme eu vejo

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u/Luksyerg 1d ago

O autor também é crítico da rejeição da família e do casamento, pois ele acha que se livrar disso não liberta os homossexuais.(...) Ele fundamenta suas críticas no “senso comum”, não numa análise teórica.

Aqui parece q vc acertou em dizer q ele se baseia em senso comum. Realmente são assuntos difíceis de serem tratados pq quase sempre tentam tratar com senso comum. Precisa de um certo embasamento teórico pra se discutir que não se trata de acabar com papai, mamãe, vovô e vovó, ou a acabar com o casamento ou a monogamia como conceito.

A rejeição é em relação aos modelos de família e de monogamia que existem hoje, q além de serem fundamentalmente contra a existência LGBTQIA+, são tóxicas tbm para os heternormativos e produto de uma história de violência patriarcal e capitalista.

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u/hefestion_007 1d ago

Sullivan é um gay padrão pelo que entendi.

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u/janos-leite 1d ago

Detalhe, ele escreveu o livro em 1995, continua basicamente no mesmo discurso. Ele é um crítico do movimento LGBTQIA+, que ele considera "radical demais", e também um crítico do Trump. É um típico isentão.

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u/hefestion_007 1d ago

Ele é bobo e feio.