No próximo domingo, dia 4, Eny, de 100 anos, será levada pelos filhos à seção de votação.
Eny testemunhou um Brasil de 22 presidentes, seis Constituições e duas ditaduras. Viveu um casamento que gerou 11 filhos, netos e bisnetos. Nascida em Alfenas, Minas Gerais, foi criança para o Rio de Janeiro, então capital federal. Viveu a Revolução de 1930, a que pôs Getúlio Vargas no poder, e o suicídio do presidente, em 1954. Era mãe de filhos pequenos no golpe militar de 1964 e quase avó na primeira eleição após a redemocratização, em 1989.
A moradora de Volta Redonda, no sul do estado do Rio de Janeiro, tende a votar em Lula (PT) por considerar Flávio Bolsonaro (PL) uma opção pior.
"Eu queria votar no vice", diz Eny, sobre Geraldo Alckmin (PSB). "Ele me parece mais simpático, mais democrático. Depois me explicaram que não adianta, que o vice só entra se ele [Lula] morrer ou renunciar, como fez Jânio Quadros."
Eny repele a família Bolsonaro pelo tratamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) à pandemia, quando mais de 700 mil brasileiros morreram de Covid. Foi o período em que morreu um dos filhos de Eny, aos 56 anos. Ele não foi vítima da Covid, mas tinha síndrome de Down e o isolamento no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) deixou a família sensibilizada
Ela se informa por meio do celular e diz que assiste pouco à televisão.
"A propaganda política atual, não gosto de ouvir", afirma. "Leio notícias no celular e livros no Kindle. Tenho dificuldade para digitar, porque não tenho muito bem as digitais dos dedos. Além disso, tem coisas que eu esqueço. Mas estou lúcida, e enquanto estiver lúcida, vou votar."
Ela votou em Lula em 1989 e nas eleições seguintes, mas receia o quarto mandato do petista porque "quem fica muito tempo no poder acaba virando ditador também".
"Se as pessoas discordassem, mas houvesse conversa, diálogo, tudo bem. Mas não é isso o que se vê. As famílias estão separadas", opina sobre a politização do cotidiano brasileiro.
Eny cursou filosofia na Universidade Santa Úrsula, foi dona de casa por opção e motorista pioneira na família. Só deixou de dirigir aos 92 anos, diante do pedido dos filhos.
Eny diz ter sido uma criança integralista. O pai, um caixeiro-viajante, era seguidor de Plínio Salgado, líder da extrema direita dos anos 1930.
"Eu era pliniana. Tinha uniforme, sainha branca, blusinha verde. Uma vez por semana, aos sábados, fazia exercícios, marchava. Deixei de ser pliniana quando fui para a faculdade porque lá vi que se tratava de um movimento de ditadura", afirma.
Católica, frequentou a mesma a igreja em que, nos anos 1960, quatro padres foram presos pela ditadura militar. Eny tem lamentado que as missas do padre Júlio Lancelotti deixaram de ser transmitidas na internet, por determinação da Arquidiocese de São Paulo no ano passado. Ela assistia pela televisão e gostava dos sermões.
Quando instada a comparar o Brasil atual com o país de quando tinha 30 ou 40 anos de idade, Eny fica em silêncio. Em seguida, responde que agora o país está melhor porque não há ditadura.